Enquanto o governo tece loas à importação de médicos - especialmente os cubanos, diga-se de passagem - devido à "falta de médico", convenientemente esquece de investir nas condições de trabalho para estes profissionais. É o governo do PT colocando as amizades políticas e as afinidades ideológicas acima da saúde do próprio povo.
Pois bem, colhi, nessas andanças pela internet afora, um comentário de Alexandre Arraes, que contém o desabafo de um amigo médico. Este desabafo é uma resposta a um, dentre tantos, que vê "corporativismo" em uma classe só por ela se opôr a esta importação canhestra do governo do PT para favorecer os "compañeros" Castro, de Cuba. Copiarei o post na íntegra e, logo abaixo, colocarei o link do vídeo do deputado que fala sobre este mesmo assunto, cujos comentários contém este desabafo. Eis:
"Escrevi
esse desabafo há pouco, no mural de mais um amigo que resolveu
descascar os médicos no seu perfil do facebook, em virtude desse debate
sobre a importação de médicos cubanos... Deixei
no meu perfil pra que aqueles que não são da área possam botar um pouco
a mão na consciência... Vou substituir o nome do cara do início do
texto, o resto vai na íntegra:
"Fulaninho,
eu sou membro dessa categoria que você, com extrema classe, disse não
respeitar. Discordo veementemente do modo esquerdista de ver o mundo,
mas tento não deixar isso influenciar em qualquer conversa, e não
pretendo fazer isso agora, mas peço que reflita sobre o que vou dizer.
Não
acredito que os médicos cubanos sejam solução. Nem os espanhóis, nem
portugueses, nem americanos, suíços, ou até mesmo brasileiros,
extra-terrestres ou os mais belos anjos. O problema é estrutura. Digo
isso com conhecimento de causa, visto que eu trabalho e trabalhei no SUS
nos últimos 4 anos em que estive formado. De que adiantará um médico em
qualquer localidade que seja, quando não se possui o MÍNIMO para
trabalhar? Medicina é mais que estetoscópio e conversa. É saneamento
básico, é educação, é leito hospitalar, é exame laboratorial, é
ultrassonografia, é tomografia, ressonância, é UTI, centro cirúrgico, é
fisioterapia pós-operatória... dentre outros. Eu já trabalhei em vários
interiores, mesmo sendo membro dessa categoria "corporativista e de
reserva de mercado" (em suas palavras). O meu primeiro paciente, o
primeiro que eu vi na minha frente como médico, em uma USF a 400 km de
Recife, possuía um quadro de icterícia obstrutiva, e estava ali, na
minha frente, com dor e amarelo da cabeça aos pés. A conduta correta
seria interná-lo pra investigar o que estava acontecendo. Falo com a
minha enfermeira, ela diz que isso não é possível. Não havia leitos para
alocá-lo, muito menos exames a serem realizados. Medicação no posto?
Paracetamol. O tylenol que você toma. Consegui, a duras penas, pedindo
favor pra amigo residente na capital e transporte de CARONA, levar o
pobre coitado pra Recife, onde foi realizada uma tomografia que
constatou um tumor de pâncreas. Eu gostaria de saber o que o colega
cubano, em locais mais inóspitos ainda, poderia ter feito. Porque nem
medicação pra deixar o cara confortável em casa dava pra arrumar. E você
se vira nos 30, tentando, de alguma forma, ajudar o cara, e ainda
morrendo de medo de levar um processo nas costas, porque ninguém quer
saber se você tinha ou não condições de trabalho. Tem que fazer feito o
Harry Potter e fazer as coisas acontecerem em passe de mágica. Isso foi
UM paciente. Na mesma manhã, atendi mais 19. Doente no interior não tem
só hipertensão e diabetes. E mesmo quando o problema são as doenças mais
básicas, elas complicam. Acidente vascular encefálico, pé diabético,
crise hiperosmolar, infarto agudo do miocárdio... nada disso vai ser
resolvido com "tome este comprimido duas vezes ao dia e retorne em duas
semanas".
Gostaria
também de salientar que não são fornecidas, na grande maioria, as
mínimas condições para que se realize um atendimento de qualidade. Dos
diversos empregos que tive (mudei de alguns, porque levei CALOTE de
prefeitura), em apenas UM eu tinha consultório, com uma porta e uma
maca, que dava pra examinar alguém decentemente. Em TODOS OS OUTROS,
trabalhei atendendo gente em varanda de casa (com dois cachorros que
viviam puxando a barra da minha calça no meio do atendimento - muito
divertido, queriam brincar, mas eu tinha que trabalhar), sala de aula em
escola (dividindo o momento de atendimento médico, confidencial e
sigiloso, com a turminha aprendendo o ABC), e até mesmo uma DESPENSA de
um 1,5 metro quadrado, em que só cabia eu mesmo, sentado numa cadeirinha
no escuro, escutando o coitado do paciente, de pé, na porta. Vale
relatar que todas essas referências que fiz quantos aos meus
"consultórios" referem-se a cidades a não mais do que 100 km de
distância de Natal. Quiçá outras localidades. Pra conseguir exame de
sangue? 2, 3 semanas de atraso. Ultrassonografia? Vixe, um mês. Tomo?
Ressonância? Mais fácil acabar a seca no sertão. Por melhores que sejam
as intenções da atuação na medicina preventiva, caro Daniel, pessoas
adoecem. Câncer acontece. Infarto também. Fratura. Pneumonia. Crise
asmática. Pé diabético, AVE, parto complicado, pré-eclâmpsia.Plantões
de emergência em interior? Tente realizar uma reanimação de parada
cardíaca, quando você sabe o que fazer, e o monitor dos dois
desfibriladores não funciona. Ou então transferir um paciente com um
acidente vascular encefálico hemorrágico, entubado, em uma ambulância
que nada mais é que uma FIORINO, passando três horas debruçado em cima
dele, fazendo a ventilação mecânica e balançando de um lado pra outro na
"caçamba" da "ambulância". Sabe o que aconteceu com o pobre coitado?
Faleceu... Porque quando chegou na unidade de referência, havia mais 8
pacientes com quadro similar, ou piores no hospital de referência, e não
existiam meios para fornecer o tratamento necessário àquele doente. E
você faz tudo isso, passa horas tentando salvar o cara, pra saber que o
sistema não te ajuda. E no fim de tudo, ainda arrisca levar um processo
que vai te custar até as calças, porque a família não quer saber de nada
disso. Só quer a compensação. Cada doente que eu atendo em condições
inóspitas para a prática da minha profissão, é um risco que eu corro.
CADA UM. Se eu deixar de diagnosticar qualquer coisa, a culpa é minha. É
erro médico. E vocês, que estão do outro lado, não querem saber de
nada, só querem enfiar a porrada. Manda um engenheiro projetar um prédio
de 50 andares com um lápis e uma régua, sem transferidor. E fala pra
ele que os tubos não podem ser Tigre. Que a fiação elétrica não pode ser
aterrada. Que faltou dinheiro pra comprar a argamassa e ele vai ter que
se virar com barro. E pergunta pra ele se ele quer trabalhar assim".
Link para o vídeo aonde tem este comentário(para quem tem facebook)
http://www.facebook.com/photo.php?v=10201123981451058&set=vb.140140766087925&type=3
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